TÍTULO DO ARTIGO :
O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO NO VÍNCULO AMOROSO
MARIA
CRISTINA RECCO
RESUMO: O artigo analisa
a possibilidade do desenvolvimento do processo de individuação dentro do vínculo amoroso seja por parte de um ou
ambos os cônjuges. São ressaltados aspectos da ampliação da consciência através
dos confrontos com os arquétipos do inconsciente coletivo e suas polaridades,
que afetam o indivíduo com um intenso sofrimento psíquico até sua integração na
personalidade, proporcionando autoconhecimento, realização de suas melhores
potencialidades e um relacionamento amoroso profundo e criativo. São descritos
os estágios da alma nesse desenvolvimento, até o mais elevado que coloca o
homem em contato com sua centelha divina e lhe capacita ao amor real.
Palavras-chave: Individuação, relacionamento
amoroso, arquétipos, consciência, inconsciente, projeção, polaridades,
potencialidades.
ABSTRACT: The article analyses the possibility of the process of individualization
in the loving bond being for one or both spouses. The aspects are stressed from
awareness increased through the confrontation with the archetypical of the
collective unconscious and its polarities, which affect the individual with
intense psychic suffering until its integration to the personality, providing
self-knowledge, achieving his/her best potentialities in a profound and
creative loving relationship. It is described the stages of soul in this
development, up to the top, which puts the person in contact with his/her
divine spark and allows the real love.
Keywords:
Individualization,
loving relationship, archetypical, awareness, unconscious, projection,
polarities, potentialities.
INTRODUÇÃO

O presente artigo é destinado a analisar
o vínculo amoroso, tendo em vista a união dos casais em relacionamento amoroso.
Implica a possibilidade de cada um, o homem e a mulher atingir um nível de
autoconhecimento profundo e a realização de seu processo de individuação.
Os
conceitos de vínculo amoroso, vínculo conjugal ou casamento, utilizados neste
artigo implicam o relacionamento entre duas pessoas, de sexos diferentes ou
não, que se amam e sentem-se atraídos mutuamente a compartilhar suas vidas de
forma abrangente, ou seja, sexualmente, socialmente e em modelo de família
Este artigo é baseado em textos
da obra de Jung e outros autores junguianos e pós junguianos envolvidos com o
tema.
O
PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO
Carl Gustav Jung
(1875-1961), psiquiatra suíço desenvolveu a Psicologia
Analítica, trazendo um olhar profundo para a alma humana. Segundo Jung: “a Psicologia Analítica caracteriza-se
fundamentalmente por uma visão do ser humano que implica vê-lo como um ser que
nasce para individuar, ou seja, para ‘tornar-se si mesmo’ e realizar aquelas
possibilidades que potencialmente sempre teve” (Jung, 1978, p.147).
Essas
potencialidades, segundo o autor, são como leis internas que precisam ser
ouvidas e seguidas fielmente por meio de uma decisão pessoal e consciente.
Jung afirma que, “a consciência origina-se de uma psique inconsciente, mais antiga do que
a primeira, que continua a funcionar juntamente com a consciência ou apesar
dela.” (Jung,1986,p.274). Sendo
assim, ela pode sucumbir às influências do inconsciente, de forma que, se o
inconsciente tem este poder de influenciar, algo está ordenando seus conteúdos.
Este centro ordenador do inconsciente é denominado por Jung de self ou Si-mesmo. Na consciência, o
centro ordenador é o próprio eu também
denominado ego. No processo de individuação o ego é distinguido do self e percebido em suas diferentes naturezas. Segundo Jung, o
objetivo da individuação é despir o self dos invólucros da persona e outras imagens primordiais, ou seja, arquétipos do inconsciente coletivo,
como a sombra, o animus, a anima e outros.
O RELACIONAMENTO DE CASAIS
Jung preconiza que o
processo de individuação é precedido por uma crise rompida na personalidade, de
duração imprecisa, que invade todas as áreas da vida individual. Nessa crise, o
indivíduo fica intensamente perturbado, não encontrando sentido na vida,
podendo ter dificuldades profissionais, afetivas, intensa angústia, ansiedade
generalizada, desvitalização, vivência de pânico, sentimentos contraditórios,
pensamentos sombrios, suspeitas ou fantasias que não o deixam em paz, sensação
de vazio e alterações repentinas de humor, pesadelos e outros sintomas psicológicos
ou físicos.
A essa condição crítica e transitória, Jung
chamou de metanóia. É uma experiência psicologicamente determinada, portanto,
previsível e importante, uma vez que prepara o indivíduo para a construção de
sua verdadeira identidade, ou seja, para o processo de individuação. Por esse motivo, depende de um certo grau maturidade,
estágio em que o indivíduo se encontra quase sempre na segunda metade da vida.
Guggenbühl-Craig
(1980) afirma que o relacionamento dos casais contém uma reserva enorme de
energia psíquica, capaz de impulsionar o indivíduo para dentro de si, para um
autoconhecimento essencial. O autor analisa que através de um árduo trabalho
interior diante do confronto com as contradições dentro de si, o indivíduo pode
encontrar uma possibilidade de integração quando reconhece seus aspectos
sombrios.
Um exemplo é de uma pessoa com atitudes possessivas
no relacionamento, onde a forte persona
poderia esconder seus medos e compensar uma personalidade frágil. 

De acordo com Sanford (1986), os conflitos surgem quando,
identificado com a persona, perde-se
a noção de sua verdadeira realidade, sentindo-se vulnerável.
Esse é um tipo de sintoma de que a pessoa está se vendo dentro de uma
unilateralidade. A outra parte que ela não vê, está influenciando sua vida
interior com sintomas diversos, que são os símbolos, pois os aspectos bipolares
do arquétipo se manifestam por meio deles. O símbolo funciona como uma imagem
analógica do arquétipo, como que traduzindo o arquétipo para o consciente
através de imagens, para que possa ser analisado, ignorado, incorporado,
rejeitado, aceito como revelação ou castigo.
Carotenuto
faz alusão a uma força contida na experiência dos opostos, que, interiormente
serve-se de guia para o desenvolvimento da consciência:
O autor se refere ao conteúdo das sombras. Uma pessoa que busca conhecer
sua sombra precisa identificar seus impulsos e tendências, que muitas vezes nega,
negligencia ou não os percebe a não ser no outro.

A sombra exerce papel
relevante nos conflitos conjugais. Quando, por exemplo, um cônjuge se enche de
raiva ao ser apontado pelo outro por uma falta, certamente aí está uma parte de
sua sombra. Ao sentir a raiva, ele pode perceber sua própria fragilidade diante
daquela situação e reconhecer o que precisa melhorar em si. Ou ignorar os
elementos conflitantes dentro de si e projetar
no outro, contaminando seu relacionamento.
Outra figura interior que aparece nesta
jornada, é a anima e animus. Também chamada por Jung como sigízia ou arquétipo da alteridade. Tomando-se o conceito de Jung:
Anima é a personificação de todas as
tendências psicológicas femininas na psique do homem, o humor e sentimento
instável, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade
para amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos
importante, o relacionamento com o inconsciente (Jung, 1977, p.

Determinada pela imagem
materna a anima apresenta aspectos benéficos ou maléficos, dependendo das
influências que o homem recebeu de sua cuidadora. Tanto pode levar um homem a
sua completa destruição como ao desenvolvimento de sua personalidade. Sendo
negativas, o homem poderá demonstrar uma personalidade depressiva, insegura e
vulnerável, carregar uma história de apatia ou impotência. Ou empregar rancor e
desprezo na lida com as pessoas. Outro caso é quando o relacionamento materno
foi muito centrado no filho e ele se torna efeminado ou explorado por mulheres.
A projeção da anima em uma mulher, faz com que o homem
apaixone-se por ela arrebatada e repentinamente.
Jung observa que a anima negativa intensifica e exagera as
emoções do homem em um relacionamento, de tal forma, que ele não compreende
seus sentimentos ficando incapaz de expressá-los. Como se a anima negativa colocasse essas feridas
num caldeirão, que irão ferver e corroer por dentro do homem e depois, possuído
por uma grande raiva, vai canalizar em algo, que pode ser o próprio vínculo
amoroso.
De forma similar uma personalidade masculina também se oculta na mulher,
o animus. Um dos temas favoritos do animus é a ‘busca e o desejo do amor’.
Moldado pela imagem paterna será positivo quando personificar convicções que a
ajudam a encontrar seus objetivos.
Reconhecer seus sentimentos e expressá-los de forma clara e objetiva é um
exemplo do animus positivo.
Porém, os sentimentos podem
ser negativos quando afastam a mulher de seus ideais mais íntimos, seja por
julgamentos e reflexões frios e destruidores, ou sentimentos de profunda
insegurança que podem levar a uma sensação de nulidade e vazio ou a reações de
agressividade. Pensamentos e sentimentos dessa natureza apoderam-se da sua
mente: “O ego se identifica com eles a
tal ponto que se torna incapaz de reconhecê-los tal como são. Fica-se de fato,
possuído pelo personagem do inconsciente” (Jung, 1977, p.193).
Um exemplo de possessão do
animus negativo é quando a mulher discute de forma agressiva e racional
questões de sua afetividade, usando de ofensas e tornando vulnerável o vínculo
amoroso.
Quando no homem ou na
mulher, a causa de sua ferida é reconhecida, a possessão desaparece. Sanford
(1986) comenta que quando cada um encara seu animus e sua anima, uma nova
evolução psicológica inicia.
Para o homem isto pode significar um
respeito renovado pelo mundo do coração, pelos relacionamentos, pela alma e
pela busca de sentido. Para a mulher pode significar uma caminhada renovada,
para o mundo do espírito, da compreensão e uma nova espécie de envolvimento com o mundo que fica além da família (Sanford,1986, p.80).


Portanto, homem e mulher estarão se
relacionando com o inconsciente com oportunidade de ampliar sua interioridade.
Além das fantasias eróticas
com o feminino a anima auxilia o
homem a olhar para o seu mundo interior e ter contato com ele. Jung definiu a
anima, como o arquétipo da vida, que contém o elemento do significado. Quanto
mais esse sentido é reconhecido, tanto mais a anima perde seu caráter
compulsivo e impetuoso. Ao contrário, ela desperta para a beleza e para a
capacidade de amar a si, ao outro e a Deus.
O animus, segundo Jung, é
para a mulher guia e ponte entre seu mundo interior inconsciente e sua
consciência, rumo ao seu amadurecimento, através do poder de discriminação, da
compreensão e concentração focalizada.
Segundo Lyra (2012), anima e animus se elevam nos estágios na
medida em que são transformados em cada indivíduo em particular e essa é a
razão de ser o casamento uma possibilidade de salvação da alma. “Para que haja transformação, anima e animus
precisam ser redimidos, ou seja, a consciência precisa adquirir a força dos
instintos pela contenção, o que vai levar a experiência da ampliação da
consciência do indivíduo e do casal” (Lyra, 2012). Essa energia poderá ser canalizada positivamente no vínculo.
Downing
acrescenta outro arquétipo, o duplo: “o duplo é uma alma gêmea de forte
proximidade e afeto. O amor entre homens e o amor entre mulheres, como
experiência psíquica, frequentemente baseia-se na projeção do duplo, assim como
a anima e o animus são projetados no amor entre sexos diferentes” (Downing,
1991, p.61). Trata-se de um profundo
ponto de apoio de uma pessoa, projetada em outra do mesmo sexo sob a forma de
admiração, de profunda ligação amigável ou atração sexual e vínculo amoroso.
Sua função é similar ao animus e anima, conforme o conteúdo projetado seja
feminino (anima) ou masculino (animus).

Quando o homem e a mulher
reconhecem em si os seus problemas, estão retirando a projeção no outro, afinal
não existe nada fora de cada um que possa poupar-lhes a própria jornada.
Jung trás a imagem alquímica
do Coniunctio, a união dos opostos, o
masculino e o feminino, que equivale à união das partes conscientes e
inconscientes da personalidade, pela força do eros, ligando a razão com a alma, passando por luz e sombra, unindo
o passado, o presente e o tempo eterno.
No aspecto religioso, a
Igreja associa o matrimônio, a uma representação a nível humano, do mistério
divino de Cristo com a alma. Explica Sanford, que a imagem do Coniunctio simboliza de modo profundo, o
relacionamento de Deus com o cristão. Cristo na representação do esposo e a
alma humana sendo a esposa. A história da vida de Cristo, contem muito
simbolismo psicológico. O grande mistério do Amor parece indicar que ele
precisa passar por grandes batalhas e provações, para ser realizado. Esse fim
seria a aceitação do Amor de Deus e a Si-mesmo,
para amar a outra pessoa.
Santa Tereza também comparou a evolução
individual a uma passagem através das “moradas”. Nas quatro primeiras moradas,
o indivíduo deveria passar por todo seu mundo obscuro povoado por répteis,
pássaros negros e vampiros. Depois começaria a fase de luz, onde a pessoa
começa a perceber e despertar para a luz do Sol, prosseguindo até a sexta
morada, onde vai completando seu processo de realização como homem físico. Na
sétima morada, haveria o encontro com o centro da alma. Esta é uma belíssima
metáfora do processo de individuação, onde
o ego vai sendo estruturado no final
de cada ciclo arquetípico, capacitando-o a integrar de maneira própria e
peculiar, os dinamismos daquele padrão em questão.
Dessas vivências decorrentes das inúmeras polarizações
vividas, sejam elas, nos confrontos com a persona,
os arquétipos da alteridade, a sombra,
o self, o indivíduo vai se re-conhecendo
e também ao seu cônjuge, de modo que sofrem uma verdadeira separação daqueles
ideais projetados no outro e no vínculo amoroso, para que na sétima morada,
possa surgir um encontro realmente criativo entre o casal. O Sol que os
aquecerá e iluminará a vida a dois, após a noite escura. O Sol que dará forças
e sentido para a alma, onde a personalidade poderá despontar em sua totalidade.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Abordou-se nesse artigo, o
casamento como um fenômeno carregado de imagens arquetípicas, que se apresentam
no curso da vida do casal, dando uma forma ao encontro dessas almas. Um
fenômeno extremamente rico e capaz de conduzir a alma a atravessar pelos seus
pântanos e trilhar seu caminho, para além de apenas se tornar um fenômeno biológico,
mas um ser à parte do mundo.
O arquétipo do amor poderá ser integrado e indissolúvel no vínculo
amoroso, possibilitando-o passar por inúmeras transformações e manter-se pelo
exercício de casar e recasar em cada nova fase. Essa possibilidade implica no
reconhecimento de como a atração para um casamento profundo, unindo almas além
de corpos, pode levar a uma relação autenticamente satisfatória e encontrar
força para não negar esse anseio de ser-com.
Abrangendo todo o percurso
da jornada da alma no processo de individuação, abre-se um novo panorama da
relação dos aspectos sensíveis da alma entre o misterioso inconsciente e a indócil
consciência, na intenção de dar sentido, através da energia psíquica que flui
entre eles, a todas as possibilidades antagônicas que abrigam. Sejam entre o
bem e o mal, a salvação e a ruína, a saúde e a doença, a paz e a aflição. Este
é mais que um processo, é viver os infortúnios da vida, que retornarão
diferentes a cada nova fase, invadindo a morada interior, como Santa Tereza
expõe. No entanto, o que se busca é atingir um espírito de visão superior que
possa manter a balança da alma em equilíbrio. 

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